Hoje está um dia perfeito. Para além de ser sábado, a temperatura está bastante agradável, o sol brilha, o céu não tem uma única nuvem e não está aquele calor terrível a que temos estado habituadas. É um daqueles dias em que a saudade aperta e apeteceu-me ficar por casa a escrever, neste caso na varanda que sabe melhor. Trouxe o computador, um refresco de goiaba e um dos nossos cadeirões.
Ouvem-se os passarinhos, avista-se o mar azul brilhante lá ao fundo e o ambiente é de paz.
De manhã eu e a Joana Pinto II :P fomos ao mercado, depois das aulas dela. Comprámos 1kg de carapaus, 1kg de douradas e 1kg de atum, alface, tomates, pimentos, papaias, bananas e maças e ainda uma fatia de pão de ló com cobertura de caramelo e bolinhas decorativas coloridas, tudo por 1500 escudos, 15 euros.
Regateámos bastante e já temos uma vendedora fixa no mercado da fruta. Reconheceu-nos por termos lá ido a segunda vez e disse-nos que fazia descontos sempre que lá voltássemos e entretanto ofereceu-nos mais dois tomates.
Não imaginam como se compram alimentos aqui, está tudo no chão em alguidares, tudo sujo e com aspecto muito diferente ao que estamos habituadas. O peixe tem sempre imensas moscas e está ao sol, tal como os ovos e as frutas. Se estivesse em Portugal diria talvez que nunca na vida compraria algo nestas condições, mas sempre tive a curiosidade de conhecer esta realidade e a verdade é que estando aqui não se pensa muito sobre isso e não me faz impressão nenhuma. O tempo passa tão rápido e a vontade de conhecer a cultura, os costumes e as tradições do nosso novo lar é tanta que todos os pormenores que no nosso país nos são essências rapidamente passam para segundo plano. Há imensas crianças a vender e a brincar na rua. Qualquer coisas lhes serve para brincar desde uma bola feita de jornais todos empacotados até um gato todo sujo e com aspecto doente. Vimos uma criança a brincar com uma cabrinha, pegou-a ao colo e virou-a ao contrário como se fosse um peluche. A realidade aqui é bem diferente.
Durante esta primeira semana de estágio tivemos a oportunidade de conhecer várias áreas do nosso centro de saúde. Consultas de planeamento familiar, de saúde infantil, vacinação, saúde escolar, visitas domiciliárias e a infantários, para avaliação do crescimento e despiste de doenças.
Todas as áreas são interessantes mas decidimos realizar o nosso projecto na área da saúde escolar e visitas domiciliárias.
Ontem fizemos algumas visitas domiciliárias. Fomos a uma casa que não tinha água nem luz. Ficava mais ou menos no cimo de uma favela. Moravam lá 9 pessoas. Vivem da venda de peixe. Escalam-no, depois salgam, secam e vendem de porta em porta. Tem alguns animais e algumas culturas de legumes. Quando chove existe uma cachoeira perto desta casa de onde aproveitam água para praticamente tudo. Também tem um tanque que recolhe a agua da chuva que usam para beber, lavar e tudo o que seja preciso. Afinal é possível viver sem o conforto que nós chamamos de essencial. Para estas pessoas o essencial é terem agua, comida e o dinheiro que chegue para sobreviverem. Notei na expressão deles que eram felizes com o que tinham. Todos os elementos escalavam o peixe desde o avô de 90 anos ao segundo elemento mais novo de 10 anos, que por acaso fazia 10 anos naquele dia. Recebeu de presente uns boxers novos e ficou todo contente. As crianças desta família vão participar no convívio de Natal que o nosso centro de saúde, Chã de Alecrim, vai organizar para as crianças mais desfavorecidas, onde eu vou fazer de Pai natal e a Joana Pinto de anão, talvez lol.
Mesmo sem quase nada, a Sr. Francisca que gosta de ser chamada por Kinha, ofereceu-nos comida, maçarocas de milho assado e o peixe que eles estavam a preparar. Estava bastante saboroso e no meio de tanta hospitalidade quase esquecemos a pobreza em que realmente esta família vive. Acredito que a riqueza não traz felicidade. Aqui sente-se mesmo que não é preciso ter muito para se ser feliz. Existem tantas famílias ricas que a hora das refeições não tem tema de conversa. Tem dinheiro, saúde e conforto e encontram problemas em cada pormenor. Esta família é pobre, não tem dinheiro, agua nem luz, muito menos conforto. A estrutura da casa é em pedra pintada de azul as portas não tem forma, parece que alguém mandou uns martelos a parede para fazer uma pequena entrada. No entanto esboçavam sorrisos e até mesmo gargalhadas, perguntaram imensas coisas sobre Portugal inclusivamente pelo Benfica. É uma lacuna bastante recorrente nesta ilha.. ahah. Enfim, foi uma manhã bem passada. Em Cabo Verde é considerado falta de educação mais propriamente demonstração de superioridade não aceitar a comida que nos oferecem, portanto tendo em conta que visitámos 5 casas posso dizer que já não corremos o risco de morrer subnutridas como pensávamos.
Relativamente á saúde escolar, fomos apresentadas às turmas do primeiro e quarto ano de uma escola primária que fica mesmo ao lado do nosso centro de saúde onde aparecem muitas pernas esfoladas, picadas de mosquitos e afins na sala de curativos :P
Falámos com a professora no sentido de tentar perceber quais são as maiores necessidades destas crianças. A professora disse-nos que todas as ajudas são bem-vindas mas talvez higiene oral e higiene corporal sejam as mais problemáticas. Os miúdos são amorosos. Já nos conhecem e no outro dia uma menina, a Tatiana veio-nos dizer que um colega de turma dela lhe disse que gostava que fossemos mães dele. Não dá para descrever a sensação..
Ás vezes costumo levar a máquina fotográfica comigo para o estágio, mas ainda não consegui captar uma fotografia que retratasse na perfeição a escola destas crianças. É simplesmente fantástica! Parece retirada de um filme antigo. Velhinha, pequenina mas muito acolhedora. As mesas são antigas, as paredes desgastadas estão cheias de desenhos coloridos feitos pelas crianças, os quadros são de ardósia e ouvem-se gargalhadas a toda a hora. Não tem cantina, mas todos os meninos tem direito a um lanchinho a meio da manhã. Para nós que estamos habituados a ver escolas primárias nos grandes centros urbanos, poluídos e barulhentos, onde os pais vão levar os filhos à escola de carro, ..esta escola parece o paraíso. É certo que não tem os mesmos recursos mas isso não é de todo o mais importante.
Aqui, apesar de não parecer também estamos em época natalícia. Temos uma árvore de Natal mesmo em frente ao nosso centro de saúde feita de arames em torno de um poste.
É diferente, mas não deixa de ser especial. Ainda não sei muito sobre as tradições cabo verdianas em relação ao Natal mas já percebi que cada ilha tem os seus costumes. Cá em S. Vicente as igrejas não são decoradas com azevinho nem nada que se pareça, simplesmente tem uma data de fios suspensos aos quais estão presos vários triângulos coloridos tipo santos populares. Que risada! Lol Também já percebi que não conhecem os anões do Pai Natal porque a Joana Pinto queria ser o anão na dramatização que vamos fazer para as crianças mais desfavorecidas e a enfermeira esboçou um traço de ignorância na cara relativamente à existência de anões.
Quando saímos do mercado da fruta e dos legumes, hoje, estava uma telefonia gigante que passava musicas de Natal. É um sentimento mesmo estranho. Vestidas à verão, de mochila as costas com sacos de peixe, legumes e fruta nas mãos enquanto transpiramos que nos fartamos a caminho de casa. Ouvir musicas de Natal nestas condições é a sensação mais estranha de sempre.
Apetecia mesmo um bocadinho do frio de Portugal para refrescar. Estar num sitio frio e aconchegar-me no quentinho de uma casinha com a lareira acesa, luzinhas de Natal, o barulho da madeira a queimar e cheirinho a bolinhos de Natal no ar.
Que saudades!
Temos praia, calor e sol que também não é mau de todo vaaa, ahahaha :D
Resumindo, está a ser uma experiência maravilhosa e irrepetível.
A única desvantagem é o tempo, o único factor adverso desta aventura. Temos imensa coisa para fazer: estágio, dar aulas aos alunos de enfermagem do segundo ano, fazer projectos, reflexões, estudar para a frequência de cuidados intensivos, monografar e ainda tratar de todos os assuntos relativos a casa, comprar tudo o que precisamos, cozinhar, lavar roupa, arrumar tudo e matar saudades das pessoas de quem gostamos. E claro ir a praia, conhecer a ilha, sair a noite... Acho que os dias deviam ter o triplo das horas cá!
No próximo fim-de-semana talvez demos um saltinho à Ilha de Santo Antão. Dizem que é a ilha mais bonita, mais verde, com mais cachoeiras e com menos caçubody de todo o arquipélago de Cabo Verde! Vamos de barco :D
No fim da próxima semana que se avizinha PÉSSIMA, acho que merecemos! ;)
Muitos beijinhos com saudades,
Joana Pinto Nunes
é isto que fazes nas longas horas que levas isolada no teu quartinho...
ResponderEliminarDesde já aviso que estou de veras chateada, uma vez que o único nome focado neste extenso texto é o da Joana Pinto, sua colega de quarto e de estágio!
Assim o que é que o pessoal vai pensar pah? Que não nos damos, que discutimos a toda a hora e que a "má onda" reina sobre nós!
Não que não seja verdade, mas joaninha... pelo menos mantém as aparências :P
Já agora, lagosta:P, aproveito para dizer aqui em público que a menina ainda não esteve presente na minha sessão de fisioterapia.
E hoje doi-me tanto as costas... xD
Beijinhos ******* (um para cada menina)
Bia
Bia, que mongaaaa :D
ResponderEliminarninguem te manda ficares fechada em casa enquanto nos vamos para a rua e tiramos fotos depois queixa-se de não estar presente em nenhuma. e já lhe fiz uma massagem, sei que deve ter sido uma massada mas nao se queixe ta?
ahahah beijinhoooo parvinha :)
JPN
Quando estava a ler este texto, tentei aguentar-me para não chorar, mas quando li a frase: "no outro dia uma menina, a Tatiana veio-nos dizer que um colega de turma dela lhe disse que gostava que fossemos mães dele. Não dá para descrever a sensação.." não aguentei... Vieram-me logo as lágrimas!
ResponderEliminarÉ isto que tu fazes, cachopa! Metes assim as pessoas a chorar... não há condições! :D
estou a brincar, joaninha. Emocionei-me msm*
baahhh... nunca mais é dia 16/01! meninas, quero tanto fazer parte dessa realidade!
ResponderEliminarpor aqui o natal continua igual.. todos correm aos shoppings para se atolarem de embrulhos... e depois há paralelos neste mundo onde uma simples presença pode fazer todo o sentido...
a rosario disse que me vai enviar uma lista com coisas necessárias aí.ela que me envie isso depressa ;)
beijinhos a todas